Por sugestão da Fátima Cristina ( Boa Baltazar), para ser uma tarefa da BlogGincana de Dezembro de 2009.

EM QUAL DESSES TÍTULOS, para a Blogstória, VOCÊ VOTA

"A SAGA DOS ESPELHOS" -Fátima Cristina
"OCEANO DE ESPELHOS " - Zisco
"MESCALINA" - Li
"ESPELHOS MEUS " - Zisco  
"O AVESSO DO AVESSO" - Angela  
"PARTICULAS EXISTENCIAIS" - Angela
7º "O ESPELHO ASSOMBRADO" - Eduardo P.L.


RESULTADO: VENCEU : " O AVESSO DO AVESSO " sugerido pela Angela, a quem cumprimentamos e agradecemos!

QUE TÍTULO DEVEMOS DAR PARA O CONTO COMPLETO?

Coloque  nos COMENTÁRIOS, até dia 15 próximo, sua sugestão de um Título para a Blogstória de Dezembro. Todos serão postados oportunamente, e pelo VOTO dos leitores, elegeremos o TÍTULO desta Blogstória.

"A Blogstória da BlogGincana" O AVESSO DO AVESSO "



O relógio marcava 2:00 am. O telefone tocou quatro, cinco, seis, sete vezes e continuou tocando. Flávio contou cada toque e no vigézimo quinto ele resolveu atender. Sua voz cansada de um dia longo e macabro pronunciou um "alô" monótono, porém do outro lado não se ouvia nehuma voz, somente uma respiração contínua e vagarosa como se de alguém que não tivesse pressa alguma de se identificar. Flávio desligou o telefone com um certo desprezo, verificou cautelosamente se as portas e as janelas de sua casa estavam trancadas e com andar lerdo ele voltou para sua cadeira do canto da sala de estar. Apesar de seu aparente descaso ao telefonema atendido, naquele momento ele certamente desejava nunca ter assistido um filme de horror em toda a sua vida...


Na cabeça de Flávio povoavam imagens, sombras e pensamentos, meio desconexos, mas perfeitamente verossímeis. A cada ruído, por mais sutil e leve que fosse, vindos da rua, ou das tábuas do assoalho que estalassem, em sua mente afloravam os terríveis pensamentos, sombras e imagens. Às duas da madrugada a imaginação somada à insônia se divertem com o fantástico, com o perigo, e com o improvável. Mas aquele baque seco, no vidro da janela da sala.........

Fazia dias que a vida de Flávio tinha mudado radicalmente. Ele era um cidadão modelo, exemplar, um professor graduado com uma vida calma e rotineira. Solteiro, permanentemente apaixonado pelos livros e pelas artes, Flávio vivia sozinho desde que a mãe morrera. Com os seus 46 anos, ele não ambicionava mais do que ser o que era. Porém, naquela tarde fatídica tudo tinha mudado. Passeava calmamente no jardim quando um sujeito baixo e forte, com sotaque estrangeiro que ele não conseguiu identificar, se chegou perto e lhe sussurrou ao ouvido, sem qualquer preâmbulo: "em breve estarás morto e a tua cabeça rebolará pela calçada, feita bola de trapos"



Em outros tempos pensaria ser apenas uma brincadeira de mau gosto, porém, coisas sombrias andavam acontecendo últimamente. Pode parecer loucura, mas tinha certeza de que havia algo de muito estranho com aquela casa. Mudou-se para lá logo após a morte de sua mãe, pois não aguentava continuar vivendo no mesmo apartamento que durante sua vida toda partilhou com ela. Passava pela casa todos os dias ao ir para o trabalho e nunca a tinha realmente  observado, até aquele dia aparentemente normal em que viu a placa de "venda-se". Ele sequer imaginava que o inferno começava a se aproximar sorrateiramente...


Talvez fosse a placa " Vende-se ", demasiado roída pelo tempo, talvez fosse simplesmente o aspecto ventoso e abandonado da casa. O certo era que algo o chamou aquele lugar, como se uma mola invisível o puxasse.
Mas todos os acontecimentos recentes - a morte da mãe, o estranho encontro no parque - haviam ganho uma relevância extra, pelo simples facto de que não eram os primeiros.
Mas no inicio, ele não ligara.
Recordou-se.

16 de Dezembro. O dia em que entrara na casa pela primeira vez, chave na mão, a porta gemendo de anos de solidão. E logo na entrada, ocupando o centro da parede, aquele enorme espelho, já gasto e sem brilho...
Movido pela curiosidade, aproximou-se.

O espelho devolveu-lhe uma imagem.
Uma figura austera, um rosto bem mais jovem que o seu, exibindo um vestuário de outro século.
Flávio ainda fechou e abriu os olhos mil vezes, tentando despertar. Moveu um braço, ergueu a mão... e a estranha figura repetiu-lhe os movimentos, como qualquer espelho obediente faria.
Excepto... não ser aquele o seu rosto.

Esse pequeno episódio... fora o inicio de tudo.


Após o epsódio do espelho, que ele agora recordava e que o deixara cismado, houve também o de sua mãe ...

Ele chegara em casa e ouvira sua mãe conversando.

Pensou ter alguém, abriu a porta do quarto e ela estava só, porém dizia que falava com um homem, todo de cinza que aparecera e lhe dissera que...
Chica

O homem de cinzento dissera-lhe que o dia da maldição se aproximava. O que quereria ele dizer? Ela não sabia, mas ficara nervosa. A verdade é que, desde aí, nunca mais fora a mesma. Ficava a vaguear pela casa, murmurando palavras sem nexo, pegando em objectos da sala para os deixar esquecidos no quarto ou ao contrário. Parecia ter uma fobia por espelhos. Quando passava perto da entrada, ou da porta da casa de banho, ficava mais nervosa ainda, olhava em volta como quem procurava qualquer coisa, chegava a gritar. Flávio gostaria de a ajudar, mas como? Tentou serená-la, mas não resultou. Ir ao médico estava fora de questão, a mãe gemia e dizia que não valia a pena, que o destino estava traçado. Flávio não acreditava em maldições ou encantamentos, sempre fora um homem pacato, mas agora…

Mas a verdade é que havia qualquer coisa nos espelhos. Pareciam que tinham vida. Será que também falavam?. Era estranho mas Flávio sentia que aqueles estavam a incomodar o seu espírito. Algo lhe dizia que tinha a ver com o seu futuro. Sentia a sua vida em perigo.... Tal como a da sua mãe..... 
Francisco Castelo Branco 


... Assim, com um lampejo de lucidez, Flávio lembrou de seu velho professor de Clínica.
Tinha, também ele, temores relacionados a espelhos, especialmente em noites de tempestade.
E uma maneira simples, mas desesperada, vasculhava todos os armários em busca de lençóis, cobertores, cortinas, enfim,
qualquer coisa que os cobrissem, para que seus maus agouros não se disseminassem pelo ambiente, atemorizando os moradores da casa.
Para Flávio, porém, estas medidas não eram suficientes, e sua mente se mantinha apavorada, a tal ponto de se sentir à beira da loucura.
Então abriu a porta, mirou a luz da lua e sentiu a brisa fresca da madrugada...

Carla 


Foi quando viu o Sr. Armando vindo em sua direção. Ele mora na casa amarela ao lado e sempre que o visitara quando criança, ele lhe dizia que tudo tinha um motivo, uma razão e a resposta sempre estava a nossa frente. Coincidência ou não, percebeu que recebera aquele sinal, aquela mensagem. Teve vontade de ir até ele e contar tudo que estava lhe acontecendo, mas preferiu ficar quieto, pois não sabia até que ponto tudo que estava acontecendo era real, era verdade. Entrou novamente e foi até a estante localizada no escritório, onde ficava o diário da sua mãe.
Eis que...
Nade



Ao retornar ao escritório e ler algumas das páginas do diario, de sua mãe, teve absoluta certeza, do que estava acontecendo. Que tudo, começava a fazer sentido. Sentiu vontade de procurar o Sr. Armando, naquela mesmo hora, E lhe contar o que havia descoberto. Mas Flavio se conteve. Respirou fundo e pensou e...
Sandra 
... resolveu esperar. Não queria assustar o Sr. Armando. Ele iria, de certeza, ficar tão admirado como ele. Ou será que o Sr. Armando sempre soubera de tudo?! De repente ouviu um grito lancinante. A princípio não se apercebeu do que era nem de onde vinha. E o grito repetiu-se ainda mais pungente... Flávio teve a certeza que o grito vinha da casa ao lado. Aflito, correu para lá, encontrou a porta aberta e entrou. A primeira coisa que viu foi um espelho estilhaçado. Descobriu o vizinho caído no chão, coberto de pedaços do espelho e a esvair-se em sangue. Quando Flávio chegou junto do Sr. Armando, este reconheceu-o e gemendo disse:
- Flávio, vai-te daqui, deixa aquela casa. Já não te consigo proteger...
- Sr. Armando, o que se passa? Proteger de quê? Eu já sei...
 Stiletto 
Sr. Armando já não mais responderia...
Flávio deixou o vizinho entregue aos curiosos, que já se amontoavam na elegante sala. Saiu à rua, ainda tonto, sem saber que rumo seguir. Não poderia mais voltar a sua casa. Sabia disso. A noite estava fria, o vento parecia cortar sua pele, a neve caía fina...Apertou o casaco contra o corpo...As luzes da ambulância o cegaram por um instante..o barulho da sirene o atordoara mais....Em sua mente uma só frase: “em breve estarás morto e a tua cabeça rebolará pela calçada, feita bola de trapos". Será que mais alguém leu o velho caderno de sua mãe? Colocou a mão no bolso e retirou a chave que o vizinho lhe dera, ficou a fitá-la sem mais saber o que pensar...aquilo tudo era irreal...
Regina D´Avila


....a chave da questão estava no diário de sua mãe. Mas o que Flávio tinha com aquela história? Perguntava a si a todo momento: o que e porque tudo está esmorecendo....até a chuva fina tinha um peso imenso em seus ombros, em sua cabeça....em seu cansado corpo.
A casa o amendrontava, o Sr. Armando esvaindo de sangue....coisas estranhas a acontecer...e porque tudo de ruim desabava em sua cabeça? Tantas indagações....tantos mistérios...pensava em que momento sua vida voltaria a ser uma vida tranquila, como a que ele tinha antes de ir para aquela casa.
Começou a sentir uma repulsa pela casa, pela mãe....por toda a situação pela qual estava passando...também não era para menos...Flávio tinha uma condição confortável, pacífica com a vida...derrepente tudo se trantorna....torna-se um emaranhado de mistérios e ameaças...sentia que a qualquer momento iria desabar, iria se voltar contra tudo e todos, queria a sua vida tranquila de volta, mas sentia que a cada momento tudo se distanciava, precisa telefonar, mas faltava-lhe até um momento de lucidez para lembrar a quem recorrer e buscar uma ajuda.....
Coisas Frágeis
...Nada mais fazia sentido naquele momento.

O diário eram impressões de uma alma tomada pela angustia e pela melancolia, não poderia significar mais nada além do que um desabafo por tanto desalento.

Mas como explicar tudo aquilo.

Coincidência talvez?! Flávio perdido em seus pensamentos não conseguia enxergar a verdadeira razão de tudo o que estava acontecendo...
Selena Sartorelo
Flávio sentou-se no banco da praça, e por alguns minutos perdeu-se nos seus pensamentos. Colocou a mão no bolso e retirou a chave ainda suja de sangue. Limpou-a na barra do casaco e a observou atentamente. Notou que havia uma pequena inscrição nela, aproximou-a para que pudesse ler melhor e não conseguiu, guardou-a no bolso e seguiu a passos largos de volta para casa. Nem reparou que a neve caía mais forte ainda...
Entrou em casa ligeiro e foi direto ao seu escritório, abriu a primeira gaveta e retirou uma pequena lupa, aproximou-a da chave e só, então, pode ler: Sofia - National Gallery, Sala dos Espelhos/ M836.
Não acreditou no que leu... Seria Sofia, a mesma mulher que o conquistara no passado e de quem hoje só tinha dela o que pode guardar na sua memória? Seria ela que o ajudaria a solucionar todo este mistério? Um arrepio lhe percorreu a espinha, sentiu-se entre o prazer e o medo.
As peças deste quebra-cabeça começavam a fazer um certo sentido para ele, mas tudo ainda estava muito nebuloso. Ele precisava dormir, precisava serenar os pensamentos, precisava ir a Londres o quanto antes, mas isso ele resolveria amanhã, quando acordasse... 
Wania


 Mari Amorim

... Na esperança de obter uma resposta, ele aguardava ansioso fitando nos
olhos os supostos filhos.Confuso em seus pensamentos e sentimentos,
acompanhava atento aos movimentos de Sofia.Observando a fala e os gestos dos rapazes,ele viaja na imaginação acreditando seriamente na possibilidade de construir uma família, pois havia anos que se dedicara a descobrir a verdade
e poder então dividir com todos sua alegria...
Essencia e Palavras


    Mas que é isso! Seu cérebro começou a lutar com aqueles pensamentos, Afinal estava em um museu na sala de espelhos e aquilo que via era imagem. Virou-se e não havia ninguém mais por ali e no espelho que agora enxergava claramente, via Sofia e seus filhos enevoados.
Filhos? Ele nunca tivera filhos. Não que soubesse e Sofia tinha sido sua grande paixão e nenhuma outra mulher fora amada, seu coração congelou depois daquele dia em que ela desaparecera sem deixar pistas, parecia ter sido engolida pela terra.
O que o espelho, a aversão pela mãe, o acidente com seu vizinho, aquela sentença de morte, significavam? Sua cabeça doía tentando entender tudo. Alem do esforço que estava fazendo para não mergulhar naquele delírio de filhos e Sofia.
Que vontade de abandonar-se nessa felicidade imaginária. Sentia que a loucura o espreitava com seus olhinhos apertados e um frio percorria sua espinha e suas mãos estavam geladas.Afinal não se casara com Sofia, não tivera filhos com ela, mas eles até tinham nome e ele os vira, Sua mãe já falecera, mas conversara com ela e até lembrava dela morando em sua nova casa.
Lembrou-se da pessoa que vira no espelho e que não era ele. Aquele espelho...os espelhos! O que refletiam eles afinal? Outros "Eus", Vidas passadas?

Angela 

"Flávio nem se apercebeu que amanhecia, absorto em si mesmo, desde o mudo telefonema. Durante toda a noite vagueou num labirinto de espelhos. Entrou e saiu de vidas, irreais ou não. Viajou mundo e mundos dentro e fora de si. Já não sabia mais.Já não podia mais.
 Aos primeiros raios de sol movimentou-se, fixou a luz pálida do dia e tomou uma decisão…

Nunca fora dado a crenças no sobrenatural e nada capacitado para viver angústias do inexplicável. Portanto, fosse como fosse, teria em absoluto que descobrir a causa dos estranhos acontecimentos que lhe infernizavam a vida.


(Fosse como fosse. Doesse o que doesse. Mas que se resolvesse...)


Vestiu-se com calma. Agarrou no diário da mãe e tacteou algum objecto contundente. Um velho taco de golfe, meio ferrugento, foi o que segurou.
Foi assim que saiu para a rua, passo largo e pausado, olhos fixos em frente, armado com o diário e o taco, rumo à casa do espelho. À casa que um dia disse nunca mais voltar. Tinha que ser, ele sabia. Ali, tudo se resolveria.
Mesmo que fosse, que doesse. Mesmo que matasse. Mesmo que a cabeça rolasse...
Quanto ao espelho, ou o atravessava ou o partia! – assim se decidia..."



Mena G

Flávio e seus supostos filhos chegaram bem cedo no local onde apontava a chave que havia encontrado (National Gallery), era uma espécie de museu, com arquitetura do século XVIII que havia sido reformado para os dias atuais, localizada no número 836 (a mesma indicação da chave (M836), faltava saber o que era o M).

Na porta, foram barrados pelo segurança, que afirmou que Flávio não podia entrar com aquele taco de golfe, Flávio o deixou com o guarda e entrou. Viu o mapa do local e encontrou a "Sala dos Espelhos", dirigiu-se até lá.

O local possuia em torno de 26 espelhos, cada um falava sobre um rei inglês, Flávio ouvia vozes estranhas em sua cabeça que o deixavam incomodado, queria logo acabar com aquilo, mas não sabia qual espelho "atravessar" (porque havia deixado o taco do lado de fora).

Como o local estava vazio, ele arriscou ir para o 13º espelho (que corresponde no alfabeto a letra M), o rei que o espelho contava a história era a rainha Maria I da Inglaterra, com um texto que falava sobre ela:

"É lembrada pela sua tentativa de restabelecer o catolicismo como religião oficial, depois do movimento protestante iniciado nos reinados anteriores. Para tal mandou perseguir e executar cerca de 300 alegados heréticos, o que lhe valeu o cognome Bloody Mary (Maria, a Sanguinária)."


Sua mãe e seu vizinho eram protestantes, então decifrou o que estava acontecendo...

- UMA MALDIÇÃO!

Sim, era uma maldição à todos os protestantes ingleses (como Flávio havia nascido em outro país, não havia sido afetado pela maldição). Mirou a chave em frente ao espelho e este se iluminou, uma ponte apareceu, levando-o para dentro do espelho.

- Esperaremos por você aqui, papai! - disseram seus filhos.

Os olhos de Flávio lacrimejaram, mas ele tinha que ser forte, não era hora para aquilo! Ele entrou no espelho e este se quebrou...
Flávio daria um fim aquela maldição de uma vez por todas...

Ele olhou para trás, o espelho estava intacto. Olhou seu corpo, ajeitou a roupa. Os olhos percorreram o espaço novo. Havia uma luz tênue, um ar fresco, sentiu-se numa manhã de outono. Levantou o rosto para ver o céu. Não havia céu. Era tudo novo, mas, ao mesmo tempo bastante confortante. Flávio lembrava vagamente de alguns rostos, sabia que passara por momentos inquietantes, mas agora sentia apenas uma sensação de alívio e bem estar. Deu alguns passos e viu que estava num saguão cheio de espelhos. Sentia desejo de conhecer o lugar. Parou diante do primeiro espelho. Havia um rosto diferente do seu refletido. Mas ele sabia que era ele. Observou cada traço, simpatizou com o rosto maduro do homem de olhos puxados. Curioso caminhou até o segundo espelho- um rosto de mulher o observava, lembrava remotamente alguém- não sabia quem. A terceira imagem era um rosto muito jovem, olhos frios. Flávio tentou adivinhar o por quê daquela expressão fria. Soube- um turbilhão de lembranças o invadiram.

Em cada espelho uma imagem, algumas vagas, mas em todas havia uma certeza: era ele.
Diz



Entra então na sala Marlene, olha para todos os fantásticos espelhos e começa seu trabalho, como sempre fizera.

Limpar a cada um deles, dar brilho e não deixar qualquer marca de dedos das mãos curiosas que por lá passaram durante o dia, uma rotina que exige paciência e perícia, assim como lucidez e pragmatismo, tudo tem que estar perfeito.

Marlene vê a si mesma em cada um dos espelhos e relembra tudo o que vivera até então, hoje é o mesmo que ontem, o tempo já não faz mais sentido por estas bandas.

Recria o final daquilo que já tinha por ela sido dado como findo, mas não estava, talvez nunca esteja, imagens fragmentadas parecem surgir do nada.

Marlene pega sua vassoura e varre essas imagens em cacos para fora da grande sala.
Acorda Flávio em sua casa com o televisor ligado, suando em bicas, morto de sede.


Por aqui paramos de tecer esta história, acho que até o meu tropeço ajudou um pouquinho, ir e voltar é algo intrínseco ao tecer e ao tecelão, ora afoito por arrematar a trama, ora preocupado com que se tenha muito fio para tecê-la.



Pablo Picasso: Mulher ao espelho

Zisco